
Um pensamento é carregado de fatores culturais. No momento em que pensamos, realizamos um juízo de valor, uma valoração do real, passamos a alimentar a cadeia do irreal. Explico: a relação ou produto cultural apenas possui consistência enquanto livre de uma manipulação subjetiva, enquanto objetivamente observado. Isso porque, uma encenação, por exemplo, é o que é, devido à liberdade de acesso às suas mais diversas formas e camadas interpretativas.
Em outras palavras, apenas persiste a cultura quando dotada de uma personalidade plural e inconseqüente consigo mesma. Não se pode seccionar o produto do fazer cultural, de acordo com a visão própria de cada ser que, para ela, dirigiu, por um instante qualquer, o pensamento. Um único olhar não define os horizontes culturais de um produto. Assim como, o criador não deve prender-se a críticas ou censuras, de qualquer sorte. Deve, outrossim, interagir com todos os matizes de pensamento e apresentar algo de lúdico no processo criativo. Fazer arte afinal, como diriam alguns, é brincar de Deus.
Por outro lado, cada resultado de uma criação possuirá “n“ fatores de absorção positivos, e sempre “n+1” negativos. As dificuldades de divulgação e compreensão de uma proposta inovadora são sempre seu calcanhar de Aquiles.
Como explicar então modismos e sucessos de bilheteria?
Nossa visão aponta para uma cultura não consensual como meio de extrapolar a própria noção de Liberdade. Melhor dizendo: cada sociedade possui uma consciência latente, expectativas, sonhos e padrões de comportamento previsíveis. O realizador cultural, no que se aproxima mais da comunidade, estando geralmente nela inserido, tende a captar tais nuances e a trabalhar em cima deles. Muitas vezes, sem se dar conta, espontaneamente; outras vezes de caso pensado, maliciosamente, de modo a atingir um espectro o mais generoso possível de expectadores ou compradores para seu produto.
O grande capital, ou o capital financeiro, converge sempre no sentido de tolher manifestações artísticas inovadoras, pois se trata da conservação do “status quo” , principal meta dos investidores. Num só tempo, a cultura busca o caminho inverso, associar-se à chamada vanguarda, produzindo sempre o que menos se espera, ou o que mais improvável nos possa parecer como receptores culturais. Ao realizador cultural cabe surpreender o público. Mas como fazê-lo quando este não o quer ou simplesmente não está preparado para ser instigado?
Uma pergunta se impõe: existe atualmente alguma mutação cultural a qual podemos denominar Vanguarda? O que seria hoje uma cultura de vanguarda?
Parece-nos um contra-senso, explicar uma vanguarda a partir do próprio presente. Menos pretensioso seria, nos nossos dias, adotarmos o termo “experimental”. De cultura experimental denominaríamos aquela fatia do fazer cultural descompromissada com resultado comercial, com o lucro e , paradoxalmente, com sua própria existência duradoura. Não que a cultura de alguma maneira possa preterir o apoio e a ovação pública, mas ela pode preferir como alvo setores mais afastados da base piramidal, atingir uma elite, muito embora não necessariamente se torne erudita ou elitista.
A diferença está na liberdade de escolha! O público a ser atingido por produtos mais sofisticados, de conteúdo mais inquisitorial, investigativo da natureza humana, é o mesmo de produções para as grandes massas. Não obstante, apenas a autonomia de escolha deverá definir se o alvo está preparado, ou não, para uma abordagem mais profunda de seus próprios valores. Não se foge aos padrões, na maioria das vezes, ocorre o oposto: procura-se exorcizar todos os paradigmas, reforçando, num primeiro instante, a existência inconsistente dos mesmos.
O ideal é a convivência harmoniosa e saudável entre todos os diversos gostos culturais, abrindo-se espaço para o experimentalismo, tanto dentro como fora do eixo motriz dos grandes centros urbanos. Hoje, porém, acontece uma metástase centralizada: apenas um grupo seleto acessa o que há de novo no circuito cultural e aquele é sempre o mesmo, pouco se renova, embora permaneça se multiplicando numericamente.
Por outro lado, se observarmos os folguedos populares, por exemplo, vamos perceber que neles já existia muito do que agora decidimos denominar de experimental. O próprio nascedouro de manifestações mais próximas da população mais esquecida pelo Estado e pela mídia é justamente o aspecto questionador e contestador de costumes da sua época.
No entanto, quanto mais “popular” (no sentido de alcance às mais diversas camadas sociais) o evento ou aparição cultural, menor seu potencial de escapar da “folclorização”. O grande capital impede a ascensão de ações culturais libertadoras simplesmente condecorando-as com o título de “folclore”. O que é o nosso folclore senão uma forma de mitigar a abrangência e o impacto de tradições culturais importantes, mas que evocam características desinteressantes a uma visão mais conservadora (e mercadológica) dos fenômenos culturais?
Precisamos, com urgência, resgatar nossas manifestações “folclóricas” do limbo, tornando-as parte integrante do nosso calendário cultural. Permitindo sua oxigenação, sem deixar de lado sua essência experimental. É mister educar a nação através dela mesma, isto é, criar no próprio nacional a desmistificação do caráter experimental do fazer artístico. Presenteando, com o mesmo espaço, culturas, aparentemente, em Tempos completamente distintos.
de
Marcos André Carvalho Lins