Terça-feira, 20 de Fevereiro de 2007

Ciranda

Nesse mês , o “Em tempo” destaca a sabedoria popular em forma de dança, um dos meios mais saudáveis de defesa das raízes e da diversidade cultural de uma nação é justamente o seu folclore: nascedouro de história, berço de etnias e embrião de mudanças.
O nosso tema em foco é a ciranda, uma dança de roda muito conhecida como brincadeira infantil, mas que também é coisa de adulto.

O que é a ciranda?

Os cirandeiros e cirandeiras dançam numa grande roda girando em sentido anti-horário, tendo o mestre cirandeiro, ao meio, como figura principal, juntamente com os músicos, na maioria com instrumentos de percussão. De mãos dadas, os participantes mesclam passos simples com o movimento das mãos, como que imitando as ondulações do mar. A grande roda vai absorvendo sem qualquer impedimento de idade, raça, cor, religião, sexo ou classe social, as pessoas que se prontificarem a participar e quando atinge um tamanho superior ao espaço, abre-se uma nova roda no interior. Sair ou entrar na roda fica a critério de cada um, não havendo limite em número de pessoas.O mestre cirandeiro é quem puxa o ritmo , tirando cantigas, as cirandas, improvisando versos, tocando o ganzá e “organizando a brincadeira”, para tanto ele faz uso de um apito. O contra-mestre, geralmente com o bombo ou a caixa, é o substituto natural do mestre quando se faz preciso.

Qual a sua origem?

Dançada principalmente nas praias de Pernambuco, em particular, as de Olinda,Itamaracá, Igarassu e Recife, há quem diga que a brincadeira teria chegado ao Brasil via Portugal, que teve um longo período de integração com os mouros, e também por meio dos imigrantes árabes que vieram da Síria e do Lìbano.A etmologia da palavra, segundo o padre Jaime Diniz, um dos conhecedores do assunto, vem do vocábulo espanhol “zaranda”, que significa instrumento de peneirar farinha e que seria um derivativo da palavra árabe “çarand”. Conta-se que a ciranda nasceu como uma maneira encontrada pelas esposas dos pescadores ausentes para distrair os filhos que não podiam entrar nas rodas de coco da época. De uma simples e despretensiosa diversão, as cirandas ganharam tons sérios, a partir da década de 70, sendo incorporadas ao circuito turístico regional, e ganhando o mundo através de composições de Chico Science e Lenine, dentre outros, que somaram a ciranda aos seus repertórios.
A mais ilustre cirandeira é Lia de Itamaracá, da praia de Jaguaribe, sendo também muito conhecida a cirandeira Dona Duda, Vitalina Albertina de Souza, da praia do Janga. Durante as décadas de 60 e 70, Dona Duda tornou-se febre para todos os residentes do grande Recife que desejavam cirandar a beira-mar do Janga, litoral norte, confundindo-se com a própria história do bairro de veraneio.

Quem é e por onde anda Lia de Itamaracá ?

Há todo um folclore cercando Lia de Itamaracá. Há quem diga ainda que ela não exista. Mas a pernambucana das praias de Itamaracá, Maria Madalena Correia do Nascimento, é real. Foi ela que passou o ritmo para a pesquisadora e cantora Teca Calazans, e que, um pouco mais adiante, se tornaria conhecida por uma das canções do repertório da cantora: “ Essa ciranda quem me deu foi Lia , que mora na ilha de Itamaracá”(Um dos grandes sucessos de Teca, esses versos são da autoria de Antônio Baracho da Silva). Lia lançou, aos cinqüenta e nove anos de idade, o seu CD mais importante “Eu sou Lia” caindo nas graças da crítica internacional, sendo rotulada de “trance music” e partindo em turnê pelo mundo. Lia permanece um ícone brasileiro até nossos dias, pretendendo se aposentar como merendeira, profissão exercida para o seu sustento, ela participou recentemente , em 2006, do projeto cultura viva, do MINC, em única apresentação em São Paulo, na teia- a rede de cultura do Brasil, que uniu num grande evento os denominados pontos de cultura de todo o Brasil. Juntamente com outros onze representantes da cultura pernambucana, Lia foi agraciada, no ano passado, com o título Patrimônio vivo de Pernambuco, honra que lhe faz credora, além do reconhecimento, de uma pensão vitalícia no valor de 750 reais mensais, cujo objetivo é preservar a cultura pernambucana e permitir que os agraciados repassem seus dons e conhecimentos a aprendizes em programas de ensino nesse sentido.

O que é a ciranda do norte?

Também de origem portuguesa, a ciranda do norte, segundo estudiosos amazonenses, floresceu como uma crítica social dos residentes de Tefé aos naturais de Nogueira, cidade vizinha, e se caracteriza pela vestimenta simples confeccionada em chita barata, justamente para satirizar o provincianismo dos nogueirenses, cuja vida, mais conservadora, baseava-se na pesca e agricultura familiar. Também uma dança de roda, o vestuário é o grande mote da dança que ocorre nas ruas da região no mês de junho. Tem como personagens, dentre outros, o Carão, um pássaro da região, e o caçador, protetor das lavouras cobiçadas pela ave. O auge do evento acontece no último dia da quadra junina, quando sucede o funeral do pássaro.


A ciranda hoje

A ciranda de Pernambuco passa por maus bocados. Lia, uma das poucas a manter-se firme, conduz o espaço cultural Estrela de Lia, a trancos e barrancos, apresentando todos os sábados uma programação rica em cultura de raiz. Considerada pelo MINC um ponto de cultura, o centro cultural Estrela de Lia, vive os seus piores dias, correndo o sério risco de desaparecer. Motivo: ainda não foi consumado o convênio com o governo federal, e também não há nenhuma forma de patrocínio em vista. Lia, ainda viaja pra fora do país e faz shows eventuais no interior do estado, mas a inexistência de um apoio privado ou governamental, de peso, torna a sorte da ciranda de Lia incerta. Muito pior estão as demais rodas de ciranda, cujo destino também perde-se na ausência de incentivos e espaço na mídia.
Contato:
e-mail: ciranda@pernambuco.net
tel: ( 081) 34390619 / 88241173

local: Praia de Jaguaribe-Itamaracá- Pernambuco-Brasil


Imagem de Lia: minc_brasil's photos


Texto de Marcos André Carvalho Lins

5 comentários:

sandra camurça disse...

Rapaz...

Fazia tempo que eu não vinha aqui, essa Veneza tá boa demais!

Beijos.

PS: obrigada por lincar o refúgio.

Issamu disse...

Olá,
Acho que há alguma coisa errada com os links que você mencionou.

Bah:) disse...

O contéudo do post me ajudou muito em um trabalho sobre ciranda que fiz...
Parabéns pelo blog!
Beijo! :)

forialsb disse...

Estou iniciando uma pesquisa relacionada às cirandas.Por favor,quem pode me ajudar!?
Necessito de contatos e informações.
Sou cantora e professora de técnica vocal em São Paulo.Este projeto é dedicado ao público frequentador da EMIA(Escola Municipal de Inc Artística)/SP,onde desenvolvo trabalho.(Era orientadora vocal do Centro Cultural São Paulo).

Meu e-mail de contato-
mksing@uol.com.br

Jonnys Cavalcanti disse...

Parabéns, o post ajudou bastante na realização de um trabalho sobre ciranda.

Agradeço.