segunda-feira, 5 de março de 2007

Frei Betto: um perfil em movimento

Quem é Frei Betto?

O frade dominicano, Carlos Alberto Libânio Christo, nasceu em minas gerais, mais exatamente em Belo Horizonte, em 1944. Seu aniversário de dez anos, marcado pelo suicídio de Getúlio Vargas no dia anterior, acabou cancelado, não apenas pelo fato em si, mas por ter sido seu pai um dos intelectuais mineiros que assinaram um manifesto contra a ditadura Vargas. O evento parecia pressagiar uma vida dividida entre política e fé, vida pessoal e militância.
Em 1959, Frei Betto já integrava a juventude estudantil católica (JEC). Em 1962 foi dirigente nacional da JEC.
Dois anos à frente , enquanto cursava jornalismo no Rio de Janeiro, foi preso pela primeira vez por causa da militância.
Entre 1969 e 1973 tornou à prisão política, ali permanecendo durante os quatro anos. Entre as acusações estava a de cúmplice na guerrilha, os dominicanos protegiam ativistas da ação libertadora nacional de Carlos Marighela.
Ao deixar a prisão voltou-se para as pastorais populares. Um dos defensores ferrenhos da teologia da libertação, Frei Betto atuava no ABC paulista, quando eclodiu a greve dos metalúrgicos, da qual emergiria o partido dos trabalhadores (PT). Desde muito, um grande amigo do presidente Lula, foi convidado para participar do governo, integrando o Fome Zero, um programa social abrangente que veio a se tornar a menina dos olhos do presidente durante o início do primeiro mandato.
Considerado o intelectual do ano pela UBE (união brasileira de escritores ) em 1986, escreveu mais de cinqüenta livros, entre eles “Fidel e a religião”( 1985 ), que vendeu mais de três milhões de exemplares no mundo todo. É tido como um dos grandes representantes da luta pelos direitos humanos no nosso país, sendo homenageado pela fundação Kreisley, de Viena , por seus trabalhos nesse campo.
Assessor especial do presidente Lula e principal articulador do projeto Fome Zero, Frei Betto deixou o cargo ao final de 2004, preocupado com os nortes tomados pela política econômica do governo e pretendendo retomar sua grande paixão: a literatura.

O que é a Teologia da Libertação?


Parte indelével da vida pública de Frei Betto, assim como dos seus destinos religiosos, a Teologia da Libertação procura equacionar o natural abismo existente entre as ações evangelizadoras e os atos políticos de cunho libertário.
Iniciado com leão XIII, através da encíclica “Rerum Novarum”, o processo de inserção da igreja na conjuntura de mudanças advindas da socialização dos meios de produção proposto por Marx, vem a ganhar vida e se tornar mais pragmático , principalmente na América Latina, com o advento da Teologia da Libertação. Seria uma nova proposta para a atuação eclesiástica no seio da sociedade por intermédio de entidades organizadas com tal fim.
A Teologia da Libertação vem surgir justamente para contrapor, à arcaica visão de um mundo necessariamente secionado entre ricos e pobres, um novo arranjo proveniente da coesão e comunhão de opressores e oprimidos , até a abolição completa de tal dicotomia. Com essa finalidade foram convocadas conferências episcopais em toda a América Latina: no Rio de Janeiro (1955); em Medellin (1968); Puebla (1979); Santo Domingos (1992). Além de Frei Betto, outro grande expoente da T.L. No país, é o frei Leonardo Boff.

O que é o Fome Zero?

Ao dissertar sobre o Fome Zero mundial, um pouco antes de deixar o governo, Frei Betto lança a seguinte indagação: a cada dia a fome faz desabar 10 torres gêmeas repletas de crianças. Ninguém chora nem se comove . Por quê? E ele próprio responde: por uma razão cínica, ao contrário do terrorismo e da guerra, do câncer e de outras doenças, a fome faz distinção de classe. Só atinge os miseráveis.
O programa fome zero é uma iniciativa do governo federal, com a parceria da sociedade e suas organizações, dos estados e municípios, que tem o objetivo de garantir a segurança alimentar e nutricional dos brasileiros. Isto significa, proporcionar a todos os cidadãos o acesso a uma alimentação digna, com regularidade, qualidade e quantidade suficientes.
A segurança alimentar tem no acesso ao alimento saudável, de forma regular e suficiente um dos seus principais eixos. Este direito não pode ser visto como independente de outros direitos, como o de acesso à saúde, à educação, à moradia, ao lazer, ao trabalho e tantos outros que compõe as condições básicas necessárias para uma vida humana com qualidade. O fome zero é ambiente mobilizador e eixo condutor de programas e ações em cinco grandes áreas:
• Segurança alimentar e nutricional;
• Renda de cidadania;
• Programas complementares estruturantes;
• Ações emergenciais;
• Educação cidadã.
Segundo o próprio Frei Betto, o Fome Zero fez grandes avanços. Dentre eles a distribuição de bolsas-família, e a formação de uma extensa rede de educação cidadã, denominada TALHER, atuando praticamente hoje em todos os estados da federação.
A tendência hoje , não obstante , aponta na direção de um maior apoio aos chamados fundos rotativos solidários, segundo esclarece o atual assessor especial do presidente da república, Selvino Heck:
“As 11,1 milhões de famílias que recebem o bolsa família precisam de um instrumento de apoio para proverem seu auto-sustento e emancipação. Hoje não existe programa governamental que garanta este apoio, a não ser alguns tipos de PRONAF, para o meio rural. Há um vácuo de crédito e recursos para famílias como as que recebem o bolsa família.
Os programas de microcrédito existentes, necessários e importantes, têm atendido as demandas de pessoas que já estão no mercado, não disponibilizando acesso para segmentos da população que estão em fase de organização ou são mais empobrecidos. Além disso, são programas seletivos, pelo fato de exigirem que os pretendentes a financiamentos comprovem a sua permanência e viabilidade econômica no mercado, além de serem retornáveis e cobrarem juros bancários. Isso dificulta ou até elimina a possibilidade de um cidadão trabalhador ou um grupo organizado conseguir um financiamento para implantar um novo negócio ou consolidar seu empreendimento.
A idéia é disponibilizar recursos financeiros, não reembolsáveis e sem burocracia, para viabilizar experiências de fundos rotativos solidários, projetos associativos e comunitários de produção de bens e serviços. Os recursos podem ser originários do FAT, de fundos de ação social, serem de origem orçamentária ou de bancos públicos, ou serem recursos privados.”

O que é o TALHER ?

O governo federal passou a tratar o combate à fome como prioridade e assunto mobilizador da sociedade civil organizada. Ligado à assessoria especial de mobilização social da presidência da república, o TALHER ( rede de educação cidadã ) promove a organização e a educação popular das famílias em condições de vulnerabilidade social.
Em 2005, foram mobilizadas mais de 30 mil pessoas, num amplo trabalho de educação popular. O grande desafio desta rede tem sido auxiliar as famílias a construírem as portas de saída de programas sociais. Com os movimentos sociais - desde o movimento dos trabalhadores rurais sem terra e movimentos de catadores de lixo e cidadania, passando por pastorais e igrejas, movimentos Hip-Hop, organizações quilombolas e indígenas, até pequenas organizações e associações de moradores - a rede ajuda as comunidades na garantia da segurança alimentar e nutricional.
A rede está passando em todo Brasil com a adesão voluntária de mais de 500 educadores populares, que promovem oficinas de formação para agentes multiplicadores e para as famílias beneficiadas pelo fome zero . O TALHER ainda articula mais de 1.100 entidades da sociedade civil que investem no desenvolvimento da economia solidária e na geração do emprego-renda.

A mosca azul e outras histórias

Muita coisa da sua trajetória , como militante e nos bastidores que levaram Lula da silva ao poder, é relatada, em primeira pessoa, no seu último livro , A MOSCA AZUL – REFLEXÃO SOBRE O PODER (2006), EDITORA ROCCO. Para quem quer saber mais sobre o apoio logístico dado pelos dominicanos à ALN, assim como o detalhes acerca da morte do maior inimigo do regime totalitário, Marighella, em 1969, a sugestão é BATISMO DE SANGUE- GUERRILHA E MORTE DE CARLOS MARIGHELLA, EDITORA ROCCO, em décima quarta edição.



Texto de Marcos André Carvalho Lins

1 comentários:

JOSÉ MARCIO disse...

Parece que ele agora mudou de opinião. Vive criticando o governo e o Bolsa Família.