quinta-feira, 26 de abril de 2007

Cultura de movimento



O homem sempre foi um ser por natureza gregário e revolucionário.

Com o primeiro qualificativo, talvez todos concordem. Não persiste uma existência sem outra que lhe sirva de testemunha. O homem, em outras palavras, nasceu para presenciar a aventura dos seus iguais. “O homem é um animal social “ já formulavam os antigos. Não há como se isolar um ser humano dos demais sem destituí-lo de sua essência, qual seja, a sua racionalidade. Não existe , pois, idéia sem que haja uma outra que a contradiga. Nesse ponto Hegel guardava largos méritos. O homem, resumindo, só adota tal elemento descritivo enquanto parte de um todo ( mais, ou menos, heterogêneo, mas sempre untado por suas próprias particularidades).

Por outro lado, o homem, vivencia em sociedade uma crescente atualização dos meios materiais disponíveis para subjugar a natureza , dos quais também faz uso no intento de submeter seus pares. Assim, se de um lado fenece o meio ambiente, também se estruturam mecanismos de dominação cada dia mais vis e que vão de encontro justamente à idéia utópica de convivência societária harmônica e paritária.

Ora, uma vez que a convivência se impõe por sua própria primazia e caráter necessário, é mister que se ajuste a nossa atual realidade de sujeição e servilismo, a uma nova cultura ( ou mais antiga ) revolucionária.

Não compreendamos, todavia, revolução como a tendência à consumação de uma nova ordem através das armas e de meios violentos. Não é o caso. Até porque a própria dominação tem seus alicerces em ideologias muito bem urdidas e estratagemas econômicos, cujo esmero e cuidado disciplinar tornam qualquer ofensiva um acinte à própria noção de ente social e de unidade.

É preciso, outrossim, passarmos, de uma formação baseada na hierarquia impenetrável dos poderes, para uma cultura de movimentos. Entende-se cultura de movimento como a generalizada articulação de entes e entidades da sociedade civil em torno de causas que induzam a formulação de um renovado “ status quo “ naquilo que este lhes parecer injusto e anacrônico.

Não nos apeguemos , porém, por demais, ao conceito. Existe movimento quando determinada comunidade ribeirinha defende-se do descaso estatal e monta uma cooperativa de pescadores. Existe movimento quando uma equipe de jornalistas se utiliza de meios, ainda que eticamente questionáveis, para veicular um abuso de poder ou um tráfico de influências. Há movimento quando a opinião popular deflagra o fim de uma programação e o início de outra. Há , enfim, inúmeros exemplos de culturas de movimento. Estas fazem parte da própria dinâmica do todo social e são, em última análise, a sua melhor forma de expressão. Todas as formulações advindas do poder dominante são no sentido de mistificá-las e desacreditá-las. Ou na direção oposta, cooptá-las.

É importante ressaltarmos que os movimentos não devem possuir, grosso modo, vínculos de intimidade ou parasitários com o poder como autoridade constituída. Este não deve compor seus objetivos, muito embora nada impeça que , como cidadãos, uma parcela dos seus membros concorram e façam parte integrante do Estado como dirigentes ou legisladores, desde que o poder, em si mesmo, não lhes seja um mérito mas apenas uma ferramenta. Os cidadãos devem, então, agregar valor às instituições legalmente constituídas, e nunca deixar perderem-se no caminho a sua própria identidade e os laços com as forças que os motivaram inicialmente.

Cultura de movimento é, por assim dizer, a negação do poder como o reconhecemos nos nossos dias. Um poder corporativo, muitas vezes autoritário, e não raro, corrompido. O principal , entretanto, é tratar-se de um poder defasado em relação aos movimentos sociais, dos quais seus integrantes muitas vezes nem fizeram parte, mas utilizaram, à sua maneira, como degrau de sustentação.

Uma cultura de movimento , em certa medida, colocaria em pauta as contradições do próprio organismo social e a sua superação. Culminando, à maneira do velho Marx, na supressão das desigualdades de classe ou, por outra formulação, mais direta, no fim do Estado e criação do paraíso na Terra. Na nossa visão, a utopia de uma sociedade engajada em sua totalidade continuaria parte de concepções religiosas ou filosóficas. O que teríamos seriam núcleos esparsos de cidadania, dentro de uma sociedade politicamente madura. O que ensejaria um enriquecimento do conceito de nação, em detrimento da concepção de Estado, em poucas linhas, um Estado culturalmente mais humanizado.

Tudo isso, contudo, depende de uma única e absoluta palavra: educação. Educação que não se restringe aos bancos escolares, mas uma educação para a vida. Nesse ponto em particular, os exemplos que vêm da nossa conjuntura histórica são desestimuladores. A supremacia do mais forte sobre o mais fraco parece refutar qualquer idealização de uma cultura de movimentos. Cabe às mídias difundir as iniciativas positivas do Brasil que se movimenta e consegue bons resultados. Cabe a todos os brasileiros perseguir um ideal aglutinador já explícito na doutrina do Cristo e racionalmente elaborado no imaginário marxista.

Texto de Marcos André Carvalho Lins
Ilustrção Osvaldo Barreto

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