
Fechado desde 2004, o denominado Museu do Homem do Nordeste já foi (e ainda é) considerado um referencial nesse campo pelo povo pernambucano e pelos brasileiros de maneira geral. O Veneza de Brasileiros decidiu saber um pouco mais sobre esse imenso espaço e acervo, atualmente em restauração, numa entrevista exclusiva com Silvana Araújo, socióloga, e responsável pelo setor de coordenação e difusão cultural do museu.
A primeira questão levantada pelo Veneza, óbvio, é relativa ao motivo do fechamento do museu durante tanto tempo. Seria apenas uma questão de destinação de verbas ou descaso? Ela foi enfática: nem uma coisa nem outra. Trata-se, segundo ela, de uma verdadeira odisséia em busca de melhores acomodações para um acervo tão singular e importante. Tudo começou pela reforma do telhado, em péssimo estado à época. Comprometido pelo tempo e pelas chuvas, o telhado muitas vezes obrigava até ao uso de baldes para aparar a água. Depois de uma primeira reforma, paliativa, que não foi positiva, decidiu-se fechar o museu para uma reestruturação. Após a cobertura, passou-se a uma cuidadosa reforma do piso que era alcatifado e também se encontrava em péssimo estado. A refrigeração, que era de ar-condicionado central, também foi alterada para sprinters, e posteriormente notou-se a necessidade de mudanças na iluminação, projeto, então, realizado pela Via Arquitetura.
Uma vez organizado e sanados os problemas do espaço físico do museu, chegou-se à conclusão que não seria adequado reabrir as portas com a mesma exposição, com a mesma museografia. Era necessário repensar o que seria exatamente o Museu do homem do Nordeste, hoje.
Mas o que seria o MHN hoje?
Na opinião de Silvana, a própria denominação abrange mais do que se mostrava inicialmente no acervo. "As pessoas chegavam aqui e perguntavam, por exemplo, onde está a área do cangaço, e as grandes lutas libertárias? Onde está a música? Assim por diante, o museu não conseguia abarcar a história do homem do Nordeste em toda sua complexidade. O museu do homem do nordeste nasceu da fusão de três outros: o museu do açúcar, de antropologia e o museu de arte popular, o que ele trouxe daí estagnou por ausência de investimentos, durante um longo período, na compra de acervo novo." Explica ela. E acrescenta: “o acervo parou em 2000, a última vez que foi renovado, e o tema foi arte popular.” Nesse intuito, convidou-se Janete Costa para reformular os aspectos conceituais e de propósitos do museu. “ Janete doou seu trabalho em prol da revisão espaço-conceitual do museu , mas isso tudo demanda um tempo, daí o espaço estar fechado por tantos anos ”.
“ Agora, o museu já carece de espaço para acomodar todo o acervo disponível. Houve aporte de verbas da PETROBRAS , via lei Ruoanet, do BNDES e da própria FUNDAJ, dentre outros.” Pensa-se em fazer um piso superior, mas , por enquanto, o orçamento não permite.
Uma comissão de historiadores, antropólogos, e outros especialistas, estão trabalhando nessa nova concepção, nessa nova visão do Homem do Nordeste.
E ela ressalta: “ quero deixar bem claro, que embora o espaço físico esteja fechado, o museu continua vivo!” E completa: “ todos os projetos educativos estão acontecendo normalmente, o projeto jovem artesão, que tem um núcleo aqui no museu e outro recém-aberto em Araçoiaba, instigando os jovens a produzir a partir da reciclagem de materiais como bagaço de cana, casca de abacaxi e papel. Também há ações nossas ainda mais distantes da grande Recife. Nós fizemos um salão de arte popular em Piranhas, em 2005, e a FUNDAJ comprou todo o artesanato produzido nesse festival pelos artesãos da margem do rio São Francisco ( isso tudo virá a ser exposto agora com a reabertura do museu ).”
Em outras palavras: “ o museu está indo até a comunidade, o que é muito importante!” Defende ela. “Lógico que quando o museu está aberto, as pessoas recorrem mais , principalmente as escolas, há uma grande demanda nesse sentido.”E arremata: “ para nós que fazemos o museu é muito ruim que o seu espaço físico esteja fechado, pois trata-se, ao meu ver, da principal vitrine da fundação Joaquim Nabuco. Agora mesmo, em agosto, terá um grande festival do folclore, a procura já iniciou em maio e não param de ligar perguntando.”
Perguntamos também se o museu possui algum acervo sobre a ciranda. Ela elucidou que embora não guardem nada sobre a ciranda, trabalharam algum tempo com um pastoril. Foi convidada uma etnomusicóloga, para organizar o folguedo na comunidade de Vila Esperança, nas imediações do museu. Este, atualmente, trilha os seus próprios caminhos.
A previsão da equipe da FUNDAJ é reabrir o museu à visitação em dezembro deste ano ainda ou janeiro de 2008, mas apenas a parte relativa à história nordestina, os índios, os portugueses, os holandeses, os diversos nuances da escravidão, e a parte de religiosidade. A outra parcela do museu, que diz respeito principalmente à arte popular e antropologia, talvez reabra no segundo semestre do ano vindouro.
Merece aqui louvores a conduta da FUNDAJ: não só no sentido de preservar a memória de uma célula importante do povo brasileiro, qual seja, a cultura do homem nordestino, como também, e principalmente, as iniciativas no intuito de construir com ele sua História, fazendo dele o centro neural e atuante da mesma. Pensamos que posturas como esta, além de desenvolverem uma consciência de mundo integral e solidária, muitas vezes deixada pelos governantes em segundo plano, apenas engrandecem o país e a sua cultura, valorizando maneiras e erigindo experiências culturais auto-sustentáveis.
No mais, é aguardar a festa de reabertura do “novo” Museu do Homem do Nordeste que, ao menos no que depender de Silvana, será um grande e relevante acontecimento!
Texto de Marcos André Carvalho Lins
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