domingo, 16 de dezembro de 2007

Cultura e Mito


Por Marcos André Carvalho Lins

Há muito, desde talvez os povos mais primitivos, cultura e mito confundiam-se num todo, cada qual ostentando, a sua maneira, a defesa de uma abordagem conceitual própria. Todavia, do mito provêm as principais instituições hoje enraizadas como importantes construções culturais contemporâneas. Ocorreu desta forma com as religiões, com a política, com o esporte, com o labor, entre tantas outras manifestações da nossa cultura, vista a partir de uma perspectiva supra nacional.

O trabalho, por exemplo, organizou-se em torno de um calendário baseado em mecanismos intuitivos, para os quais a necessidade dos deuses prevalecia à dos reles mortais. Assim chegamos ao modo de produção capitalista como, num só tempo, resultado e fábrica de mitos.

A maior expressão da sagrada mitologia capitalista, talvez, advenha da sacralização da aparência em detrimento da essência. Vende-se a imagem antes do bem culturalmente confeccionado. O que, por si só, parece-nos uma excrescência. Algo que ainda não existe e pode até não vir a existir, é manipulado mercadologicamente de modo a preparar-se o terreno para sua possível existência. Vai-se introjetando, particularmente nos mais jovens, o conceito de modismos culturais. O que está em voga não tem necessariamente que atender a uma premência natural de um ser, com posturas e gostos dotados da livre escolha, mas a um axioma pseudo-consensual de que aquilo, seja lá o que for, é o melhor para ele.

Assim, não importa se eu tenho sede ou não, mas, se eu pretendo aparentar jovialidade, tenho que tomar determinada marca de refrigerante. Primeiro, formula-se o conceito para apenas, a posteriori, inserir-se o produto propriamente dito.

Indústrias e armazéns trocam as fórmulas e os fornecedores do dia para a noite, apenas para se adequarem aos “novos tempos”, ou seja, um novo sabor ou embalagem cujo público alvo exige, antes mesmo de ter ciência daquilo que está a exigir (muitas vezes antes mesmo de ter idade para fazer qualquer tipo de exigência).

Em se tratando de mitos, aparências e essências, não se pode deixar de levar em consideração o impacto titânico dos mitos provenientes dos veículos de comunicação de massa. Muitas vezes, expostos como grandes vilões, formam, na realidade, apenas mais um elo da cadeia produtiva.

Os veículos, embora importantes disseminadores de idéias, não podem responder por uma totalidade que se inicia na mentalidade estacionária das massas, passando por uma omissão governamental relevante e uma arraigada condescendência dos núcleos familiares.

O mito, compreendido como o derivativo de um mecanismo de sujeição de um ente biológico a um modo de pensar orientado pelo mercado, não se constrói do nada. Mas se coaduna com níveis de conhecimento impregnados no ideário comum a diversas unidades culturais. Carrega, em verdade, algo de sugerido, não unilateralmente pela indústria do marketing, mas encontrado em todas as respostas de um determinado meio onde o fator de socialização é externo ao próprio meio. Em terras pátrias, por exemplo, assistimos sempre a material de fora das nossas fronteiras ser veiculado pelas mais diversas mídias, enquanto, por outro lado, os elementos estruturais como a escola e a família caem para segundo plano, como modeladores do caráter de um indivíduo. Embora haja uma conexão substancial entre os dois fatos, a família parece sucumbir a tudo de maneira alheia e desarticulada.

Os veículos de massa passam a absorver a atenção do seu público justamente quando este não possui uma opinião formada sobre o assunto. Há, portanto, a preponderância aqui de uma tendência a imitação. Em outras palavras os mitos apenas ganham espaço onde não há resistência ou, por outro enfoque, onde não existem alternativas.

Eis o pulo do gato, esses veículos, produtores de uma mitologia, limitam as alternativas, impondo este ou aquele produto, como único e exclusivo. Deformando, portanto, o conceito de diversidade cultural e contaminando determinado ente social com insegurança. Uma insegurança, por sua vez, que tem sua origem nos nortes e nas bússolas que adquirem as populações ao se afastarem de suas próprias tradições seculares.

Um ente social, que não sabe para onde vai, é, por conseguinte, candidato primevo à deturpação de seus valores mais autênticos em prol de um lucro fácil e, geralmente, desovado em outras paragens. O mito produz outros mitos, os quais vão respaldar produtos finais de qualidade duvidosa e, principalmente, sem responsabilidade social.

A saída é a participação da população na conscientização de sua parcela mais receptiva aos mitos, adotando uma cartilha que dê vazão ao seu próprio vocabulário no lugar de construções tipificadas e sem identidade. Aquilo, que deveria ser tarefa primordial do aparelho estatal de educação, passa por uma preocupação de cidadania. Em poucas palavras: mudar o canal ou simplesmente desligar.

Marcos André Carvalho Lins é bacharel em Direito formado na Universidade Federal de Pernambuco e ocupa o cargo de Técnico Judiciário Federal no TRT -6a Região (Pernambuco), sendo também escritor diletante.

Imagem de Osvaldo Barreto

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quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

DANÇA – O QUE CRIA? O QUE ESTABELECE?

Por Brigitte Luiza Guminiak Sousa
Blog Olhos Verdes


Num mundo eminentemente materialista, a valorização do corpo, precipuamente, está se tornando a única dimensão humana a ser explorada, já que a conscientização do corpo permite estabelecer o que se quer fazer com ele, numa percepção cada vez mais individualizada e otimizada da própria imagem no mundo moderno.

Se antes o corpo era considerado um problema, já que era necessário controlá-lo, impondo limites à expressividade corporal, por ser considerado inferior à alma e liberá-lo significava aderir à lascívia e à luxúria, na contemporaneidade, a visão e o entendimento do próprio corpo vem tomando uma dimensão cada vez mais cativa, já que expressa autoconhecimento, além de ser uma forma de se relacionar com o mundo.

Assim considerando, a dança, ou o “estado de dança” em que se encontra um dançarino, pode ser conceituado como um estado de felicidade, ao qual o corpo se abandona. É um largar-se á vida em espontaneidade, em graça e harmonia para com a imagem dele mesmo. É uma poética corporal, o “eu lírico” que se expressa em forma de gestos, movimentos rítmicos com ou sem a música.
Os movimentos harmoniosos da dança criam sensações de liberdade, emoção que enleia e libera os sentidos antes controlados e reprimidos.

Embora sendo gestos reais, apresentados com técnica e destreza, a dança é imaginária, virtual, já que não é o corpo real que gesticula, mas a personagem criada pela dança, com emoções, expressividade, intenções próprias da personagem, formulando um mundo ilusório, outra realidade vivida pelo corpo que dança.

Para Weil e Tompakow (2007:259) é impossível tornarmos-nos conscientes das nossas posturas e querermos controlá-las, pois o conhecimento de nós mesmos faz com que queiramos nos libertar dos reflexos condicionados e nos apropriarmos de nós mesmos e isso a dança proporciona, já que cria uma linguagem silenciosa do corpo traduzindo a verdade nua e crua acerca dos sentimentos e emoções, estabelecendo uma relação de conhecimento do mundo em harmonia com o Ser.

Isso significa que o corpo que dança executa movimentos cinéticos que sensibilizam tanto quem os assiste como o próprio dançarino, já que utiliza uma linguagem simbólica que transcende a simples técnica, haja vista ser motivada pela imaginação do movimento expressivo despertando encanto, desejo e emoção.

A dança sobreviveu às imposições religiosas da antiguidade, quando passou a ser encarada como uma manifestação do Mal e do pecado, dando uma conotação puramente sexual e demoníaca, muito embora fosse apresentada em festejos religiosos e apreciada em sarais aristocráticos.

A evolução cultural proporcionou à dança oportunidade de pensar o próprio corpo, seus limites, seus medos e a imagem que se tem e se faz desse corpo, transformando o movimento, o gesto em um pensar diferenciado do próprio ato de pensar.

E pensar o corpo em movimento e o seu significado tem que ser analisado no momento da realização da dança, já que o estado de dança se esgota nele mesmo, isto é, o momento da realização da dança não se repete, ela se finda no final do ato. A técnica pode ser repetida, mas a expressividade, a emoção, o encanto, dificilmente se repetirão numa segunda apresentação.

A efemeridade do movimento significativo revelado no estado de dança pode ser entendida como uma disposição humana a uma vida feliz, destituída de amarras e limites e como uma forma de conhecimento do mundo e do outro.

Essa nova postura frente ao pensar a dança oferece um exercício inovador, pois reivindica novos entendimentos estéticos, morais e até mesmo políticos, o que proporciona uma discussão acerca do movimento e das relações entre corpo e mente, corpo e mundo.

INSTITUTO DE FILOSOFIA E TEOLOGIA DE GOIÁS – IFITEG
CURSO: PÓS - GRADUAÇÃO FILOSOFIA DA ARTE
HISTÓRIA DA DANÇA
PROFª. Ms. LUCIANA RIBEIRO


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

WEIL, Pierre e TOMPAKOW, Roland. O Corpo Fala- a linguagem silenciosa da comunicação não-verbal. Petrópolis, 62ª ed. Vozes, 2007.

MEYER, Sandra. Dança e Filosofia ? Disponível em www.culturaemrede.org, acessado em 03/11/2007

AVELLAR, Marcello Castilho. O Corpo é a memória da dança. Disponível em
idanca.net, acessado em 03/11/07


Brigitte Luiza é professora e bacharel em direito. Gosta de literatura, música, filmes, filosofia. Pós graduada em Gestão e Políticas Públicas.É de Goiana, descendente de alemães e poloneses.É católica,não carismática. É também colaboradora do site Overmundo.


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